Os resultados da mais recente pesquisa TIC Educação, divulgados há poucos dias, revelam que a educação digital e midiática acontece, em grande medida, a partir de uma abordagem reguladora da experiência digital do estudante, focada em mitigar os danos e riscos inerentes às plataformas digitais, em vez de uma proposta de educação crítica e reflexiva sobre as mídias no cotidiano. Isso porque 78% dos estudantes entrevistados indicam que o principal aprendizado recebido de seus professores sobre o tema está relacionado às regras de uso do celular durante as aulas.
A ênfase a uma espécie de redução de danos nos ambientes digitais também é observada a partir de outros dados: 51% dos estudantes indicam para um direcionamento dos professores a respeito de sites que devem ser usados para trabalhos escolares, em vez de uma problematização de fontes diversas, que poderia envolver um processo ativo de análise e curadoria. Outro dado que chama a atenção refere-se a 38% dos estudantes que relatam que seus professores discutiram o tipo de informação que não devem fornecer, ao se registrar em aplicativos, jogos e redes sociais, pautando a conversa no limite do que é perigoso, e não na complexidade da cultura da vigilância e da dataficação.
O perigo dessa postura é reduzir a educação digital e midiática a um consumo que apenas “mitigue os danos” da cultura digital, em vez de formar cidadãos capazes de exercer a crítica e a agência. Um texto recente que li sobre isso é um ensaio do pesquisador Douglas Calixto, doutor em Comunicação pela ECA/USP e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
No artigo, intitulado “Educação Midiática como matriz epistemológica para cidadania no ciberespaço”, publicado na Revista Lumina, do PPGCOM/UFJF, Calixto argumenta que há, no âmbito da educação midiática, uma perspectiva acrítica de que os professores devem exercer o papel de reguladores morais acerca das mídias, em vez de lançarem mão de uma abordagem pedagógica que problematize o estado da arte das tecnologias. Isso envolve incentivar uma leitura crítica do contexto político e econômico que permeia as grandes empresas de tecnologia (das big techs ao histórico cenário de concentração midiática no Brasil), e não apenas uma análise semiótica de mensagens midiáticas, de forma isolada.
Essa postura reguladora é, porém, sintomática do momento normativo em torno das tecnologias que, de fato, vivemos na educação. A lei federal 15.100, de 13 de janeiro de 2025, que proíbe o uso de celulares pessoais dos estudantes nas escolas acaba por impor uma mudança radical nas escolas, no sentido de que estas, além das práticas pedagógicas, precisam estabelecer novas regras e acordos com estudantes e famílias na gestão do uso desses dispositivos, o que inclui a possibilidade do uso pedagógico. O senso de reorganização das escolas pode reverberar nas práticas pedagógicas, tornando-as também mais reguladoras do que reflexivas.
No entanto, a formação docente em tecnologias digitais é, além de instrumental, pouco recorrente, o que também fragiliza uma proposta pedagógica mais crítica, em sala de aula. Os cursos de pedagogia e licenciaturas oferecem pouca ou nenhuma formação específica em educação digital e midiática, deixando o repertório desses profissionais ser construído, em grande parte, de forma intuitiva, semelhante ao da maioria dos usuários.
Essa carência formativa empurra o docente para uma busca individual de conhecimentos sobre o tema, conforme também demonstra a TIC Educação: cerca de 92% dos professores entrevistados dizem acessar fontes de referência sobre tecnologias digitais sozinhos, um dado que demonstra o isolamento na construção desses saberes.
No entanto, 54% dos professores ouvidos pela pesquisa afirmam ter participado de alguma formação sobre tecnologias digitais na educação no último ano. Desse universo, boa parte indica que essa formação é mais voltada ao planejamento docente, isto é, ao uso de plataformas, programas ou apps para produção de conteúdos, segundo 82%, ou ou uso de tecnologias para personalizar atividades, segundo 79%, e não com a tecnologia enquanto objeto de reflexão.
Apesar disso, há um indicativo positivo de que temas mais críticos estão ganhando espaço, com 68% dos professores mencionando ter participado de formação sobre “Educação midiática e uso crítico das mídias em sala de aula”. No entanto, a formação que visa orientar sobre “o uso seguro do computador, do celular e da internet” ainda predomina, sendo citada por 69% dos docentes, reiterando a prioridade na segurança e na regulação.
Em um contexto de transformações digitais cada vez mais velozes e intrincadas ao cotidiano, a formação de professores precisa deslocar-se do uso da tecnologia para o entendimento das mediações que estas promovem. Mais do que conhecer ferramentas específicas, é preciso garantir que os docentes desenvolvam um repertório crítico que os tornem aptos a problematizar o ecossistema digital, as lógicas de vigilância e os modelos de negócios das big techs. Assim, o docente deixa de desempenhar um papel meramente regulador e começa a atuar como mediador de um debate complexo, que fará da educação digital e midiática um meio de emancipação, e não de redução dos danos digitais.
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