No panorama educacional de hoje, a produção de sentidos que é possibilitada pelas mídias acontece em um contexto complexo, fruto do acúmulo de décadas de experiências midiáticas que agora convergem no universo digital e transformam a maneira como a sociedade se comunica. Essa forma de comunicação consiste, fundamentalmente, numa atuação ativa da sociedade na criação e no compartilhamento de mensagens.
Houve um tempo, porém, em que a produção midiática era exclusividade de profissionais de empresas de comunicação, como emissoras de TV e rádio, editoras ou jornais impressos. Nesse modelo analógico, o papel da audiência era bem delimitado: o de receptor dos conteúdos produzidos por comunicadores profissionais. Atualmente, no entanto, com um smartphone e aplicativos intuitivos, qualquer cidadão pode produzir vídeos e textos bem feitos tecnicamente.
Essa mudança consolida o entendimento da cultura digital, caracterizada pela midiatização do cotidiano, em que a cultura passa a ser moldada pela lógica das mídias, que reorganizam as noções de tempo e espaço, promovendo a ubiquidade (a capacidade de estar “em todo lugar” simultaneamente), além da ideia de autoria e audiência, que se permeiam nos ambientes digitais. Desde os primeiros blogs e redes sociais, como o Orkut, o público deixou de ser mero receptor para ter mais agência nas mídias.
Por isso que David Buckingham entende que as mídias sociais são “mídias sociáveis”, uma vez que priorizam a conexão direta entre os usuários. Por isso, é possível definir as mídias sociais como os ambientes da internet em que circulam mensagens produzidas pelos usuários, pessoas comuns, mas também de empresas e corporações midiáticas. Elas possibilitam conectividade e relacionamento social, descoberta e partilha colaborativa de informações, criação de conteúdo e modificação de conteúdo original.

Nesse contexto, é possível destacar quatro marcas fundamentais da cultura digital a partir dos usos e apropriações das mídias sociais:
- Participação ativa: a audiência não apenas recebe a mensagem, ela reage, comenta e modifica o conteúdo em tempo real.
- Convergência multimídia: a comunicação hoje é uma trama de textos, áudios, imagens e vídeos que se integram na construção de conteúdos digitais.
- Fronteiras fluídas entre público e privado: a exposição do cotidiano e da intimidade tornou-se uma moeda de troca, especialmente visível no fenômeno dos influenciadores digitais.
- Consumo individualizado: o acesso via celular isola o indivíduo em sua própria “bolha” de consumo, reduzindo as oportunidades de diálogo coletivo sobre o que é acessado.
Nesse contexto, as redes sociais são, talvez, o âmbito de maior influência da cultura digital. Embora seu propósito inicial seja conectar pessoas e instituições, elas se tornaram os principais canais de informação da sociedade. Por isso, ensinar sobre elas e outros tipos de mídias sociais significa, na verdade, problematizar a própria vida contemporânea.
No entanto, há um equívoco comum no campo pedagógico: acreditar que basta levá-las para a sala de aula para serem usadas pelos estudantes no contexto de suas atividades acadêmicas. É preciso considerar que o uso prático dessas mídias pelos estudantes já ocorre fora da escola. Assim sendo, o papel indispensável da educação é promover a reflexão crítica sobre esse uso.
Por isso, uma mediação pedagógica crítica não enxerga as mídias sociais apenas como recursos para ensinar alguma disciplina ou tópico curricular, mas como um objeto de estudo em si. Isso exige que o docente amplie seu repertório sobre comunicação e cultura digital. Sob a ótica da educação midiática, o tratamento das mídias sociais requer a reflexão crítica sobre o acesso, produção e difusão de mensagens de mídia. No quadro a seguir, é possível explorar essa diferença conceitual.

Na pratica, a passagem das mídias sociais como recurso para as mídias sociais no âmbito da educação midiática pode ser verificada no exemplo a seguir.

Integrar as mídias sociais ao currículo na perspectiva da educação midiática significa transitar do seu uso instrumental para uma análise sistêmica e criteriosa de seu modus operandi, seus usos e apropriações. Ainda que usá-las como recursos educacionais ainda seja válido, é fundamental aprofundar essa abordagem, contemplando a reflexão acerca dos processos de construção e dos algoritmos por trás das práticas de busca, produção e difusão dos conteúdos nas mídias sociais.
Imagem destacada: piyaset / Getty Images





