O Le Monde Diplomatique Brasil publicou em 25 de junho a reportagem “Sob influência estrangeira, Brasil aposta em política de educação midiática focada no ambiente digital”, em que o autor Gabriel Veras equipara, de forma equivocada, as políticas de educação digital e midiática ao problemático processo de plataformização da educação.
A reportagem acerta ao criticar o domínio das big techs na oferta de soluções tecnológicas para a educação e cita um estudo de 2020, do Observatório da Educação Vigiada, que constatou que mais de 50% das 76 secretarias estaduais e municipais de educação com mais de 500 mil habitantes monitoradas utilizavam soluções do Google ou da Microsoft. Há, no entanto, um dado ainda mais recente que confirma essa concentração: na pesquisa TIC Educação (2025), 65% dos professores entrevistados afirmaram usar ao menos uma plataforma educacional em suas atividades pedagógicas, e 47% desses serviços são do Google, evidenciando falta de diversidade e o predomínio de uma grande corporação transnacional no setor educacional brasileiro.
No entanto, o texto se equivoca ao sugerir que políticas de educação digital e midiática estejam necessariamente reféns desse processo. Plataformização e educação digital/midiática são fenômenos distintos. A plataformização refere-se às condições materiais em que a educação ocorre, com os sistemas públicos transformados em clientes de plataformas empresariais para gestão e práticas pedagógicas. A educação digital e midiática, por sua vez, diz respeito à dimensão curricular: ao que as escolas devem ensinar sobre mídias e tecnologias digitais, indo além do mero uso de ferramentas.
Embora existam debates sobre conteúdos e abordagens, a educação digital e midiática não prescreve plataformas ou recursos a serem usados em sala de aula; estabelece fundamentos e objetos de aprendizagem para a educação básica, como algoritmos, redes sociais, segurança digital e avaliação da confiabilidade da informação.
Importante ressaltar que o Ministério da Educação, no guia “Educação digital e midiática: como elaborar e implementar o currículo nas escolas” (2025), afirma que o currículo deve promover, especialmente no ensino médio, o “entendimento de que as soluções técnicas e computacionais são socialmente situadas e não unívocas, garantindo a autoexpressão e fluência digital dos estudantes”.
A educação digital e midiática, portanto, compromete-se com uma visão plural das tecnologias e com a problematização de seus efeitos sociais: design viciante, operação opaca de algoritmos e IAs, desinformação e seus impactos sobre a vida em comunidade, entre outros. Essa perspectiva crítica pode oferecer a estudantes e professores meios de resistência à plataformização, não um condicionamento. Ao contrário, a ausência desse componente curricular facilita a naturalização do cenário de dominação tecnológica das big techs na educação brasileira.
Por fim, a reportagem sugere que o apoio de organizações estrangeiras a ações do Departamento de Educação Midiática da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República indicaria adoção de “soluções prontas” importadas. Para sustentar tal conclusão seria necessário examinar mais profundamente como o Estado brasileiro tem tratado a educação digital e midiática, por meio dos numerosos documentos técnicos publicados nos últimos anos. Como profissional e pesquisador na área, defendo que esses documentos configuram uma perspectiva brasileira, sensível às complexidades e especificidades dos nossos territórios; a interlocução internacional não implica, por si só, simples importação de modelos.
Também chama atenção que Gabriel Veras não tenha consultado fontes da educação formal: docentes, gestores e estudantes da educação básica que vivenciam, na prática, os efeitos perversos da plataformização teriam contribuído com interpretações e relatos essenciais especialmente do Estado de São Paulo, cujo percurso tecnológico merece exame crítico e pode oferecer lições relevantes para o país.
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