Escolas ampliam ações de educação digital e midiática, mas frequência ainda é baixa

A mais recente pesquisa TIC Educação, realizada com 2.404 gestores escolares de todo o país, demonstra que mais escolas têm desenvolvido ações de educação digital e midiática, embora numa frequência ainda baixa. Atualmente, 98% dos gestores entrevistados afirmam que suas escolas realizam iniciativas de educação digital, midiática e para a cidadania digital por meio de conversas com os alunos durante as aulas.

No entanto, a maior parte dessas atividades ocorre de forma esporádica — entre uma vez por mês e uma vez por semestre. O Ensino Médio apresenta uma frequência maior que as demais etapas, com 30% das escolas afirmando desenvolver atividades de educação digital e midiática de forma regular, pelo menos uma vez por semana.

Em relação à forma de inserção nos planos de ensino, a maior parte dos gestores afirma que a educação digital e midiática é tratada de forma transversal no currículo, sendo essa a abordagem predominante em 93% das escolas. O tema também aparece como atividade extracurricular para 78% das instituições e, em 58% delas, como um componente curricular específico — cenário especialmente expressivo no Ensino Médio, que contempla a educação digital e midiática como disciplina em 68% das escolas voltadas a essa etapa.

Contudo, a abordagem transversal, embora importante, parece ainda pecar na definição de um tempo escolar mais robusto para a problematização das questões digitais. Embora já haja currículos do tema desenvolvidos pela maioria dos estados brasileiros, é preciso definir com mais critério uma carga horária para o seu desenvolvimento em cada etapa da educação básica. Afinal, a frequência dessa abordagem é fundamental para que o pensamento crítico, capaz de desnaturalizar os meios digitais, seja desenvolvido continuamente ao longo de todo o processo de escolarização.

Os dados demonstram, ainda, que quanto mais velhos os estudantes, maior é o contato que têm com a educação digital e midiática, a qual se mostra mais estruturada no âmbito do Ensino Médio. No entanto, adolescentes mais novos, que cursam os anos finais do Ensino Fundamental, também estão altamente vulneráveis nos ambientes digitais. Recentemente, veio à tona o caso de uma adolescente de 13 anos que teve contato com conteúdo sobre automutilação na rede social Discord e cometeu suicídio em decorrência dessa exposição, em julho deste ano. É fundamental, portanto, que debates sobre o mundo digital sejam expandidos com urgência para os estudantes das etapas iniciais.

Paralelamente, a TIC Educação aponta para um crescimento relevante na articulação interna das instituições: a realização de debates entre equipes de gestão e docentes sobre o uso de tecnologias digitais subiu de 68% (2024) para 86% (2025). Os temas mais abordados, nesse contexto, são as regras para o uso do celular pelos estudantes nas dependências da escola, o impacto das tecnologias para a saúde mental dos alunos e suas implicações para as práticas pedagógicas.

Além disso, a interlocução das escolas com as famílias sobre o tema também aumentou de 60% (2024) para 75% (2025), especialmente nas escolas municipais, que lidam com estudantes mais novos, da Educação Infantil aos anos finais do Ensino Fundamental.

Diante desse panorama, os dados demonstram que a escola se consolida como um espaço relevante na promoção do debate e na ampliação do repertório crítico sobre os efeitos das tecnologias para a vida em sociedade. Sua atuação tem contemplado não apenas os estudantes, que passam a refletir mais sobre o cotidiano digital em sala de aula, mas também tem contribuído para orientar as famílias — algo fundamental para a defesa dos direitos da infância e da adolescência nos meios digitais.

Por fim, consolidar esses avanços exige superar o caráter eventual das iniciativas atuais e adotar uma abordagem estruturada e sistemática para a educação digital e midiática nas redes de ensino. Transformar discussões pontuais em práticas pedagógicas contínuas, com periodicidade definida no calendário escolar e espaço garantido na rotina dos estudantes, é o caminho indispensável para formar cidadãos efetivamente críticos e seguros em um mundo cada vez mais mediado pelas mídias digitais.

Imagem de destaque:  Arthur Krijgsman / Pexels

Bruno Ferreira

Consultor em educomunicação e educação midiática. Doutorando em Educação pela FEUSP, mestre em Ciências da Comunicação e especialista em Educomunicação pela ECA/USP. É coordenador pedagógico do Instituto Palavra Aberta, docente da pós-graduação em Proficiência em Tecnologias Digitais para uma Educação Empreendedora, do Sebrae-DF, e formador de professores da SME São Paulo. Foi consultor da UNESCO e professor de comunicação e Desenvolvimento Social do Senac-SP.

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