Além da inclusão: a falta de educação midiática torna os idosos vulneráveis na internet

Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) demonstra que a dependência digital, problema frequentemente atribuído aos mais jovens, também diz respeito à terceira idade. Ao analisar 20 estudos representativos sobre o tema no mundo, pesquisadores identificaram que o medo de ficar desconectado é algo frequente entre esse segmento etário. Isso tem levado a um uso excessivo do celular, o que tem causado ansiedade e insônia entre os mais velhos.

Outros dados demonstram que após a pandemia houve uma inclusão digital mais intensa de idosos. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), de 2024, o número de pessoas com mais de 60 anos que acessam a internet com frequência, no Brasil, mais que dobrou entre 2016 e 2023 (de 24,7% para 66%).

Mas com isso, a qualidade de vida de uma geração que cresceu em um mundo analógico e que por muito tempo se mostrou resistente ao mundo digital, agora tem sido ameaçada pela hiperconexão e pelos mecanismos viciantes das plataformas digitais que também tornam as pessoas idosas cativas. Se por um lado a inclusão digital facilita alguns processos de comunicação e acesso à informação desse público, por outro, a falta de letramento digital associada ao isolamento social pode levar ao desenvolvimento de hábitos digitais nocivos.

A situação da terceira idade é mais preocupante do que a de outros segmentos etários, pois o público idoso não dispõe da mesma rede de apoio social e de proteção por políticas de Estado regulamentadas. Os mais jovens contam com políticas públicas de educação e direitos humanos, como o recente ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), um marco legal que  amplia a proteção de crianças e adolescentes no ambiente online e reforça a responsabilidade compartilhada entre família, sociedade, Estado e plataformas na segurança das gerações mais novas. Além disso, a educação digital e midiática é um componente curricular obrigatório, que contribui para fortalecer o senso crítico e o desenvolvimento de uma autonomia segura nos ambientes digitais. 

Ainda que sejam pessoas adultas e autônomas, é preciso considerar o isolamento das pessoas idosas e a consequente vulnerabilidade delas nos ambientes digitais, levando-as a serem vítimas de golpes, sobretudo por meio de Whatsapp e redes sociais.Nesses casos, o uso excessivo do celular surge como uma tentativa de preencher lacunas socioafetivas. No entanto, esse hábito acaba por prejudicar a cognição e a manutenção de laços reais, repetindo um padrão já visto em crianças e adolescentes. 

Neste cenário preocupante, a educação midiática para pessoas 60+ é uma abordagem fundamental. Atividades formativas são bem-vindas, como as promovidas pela Caravela Educom junto aos integrantes idosos dos Núcleos de Cooperação Socioambiental de Itaipu, presentes em 21 territórios do Paraná e Mato Grosso do Sul. Com o workshop “Conectados com Segurança”, 356 pessoas com mais de 60 anos puderam refletir sobre golpes digitais, desinformação e inteligência artificial, explorando estratégias de leitura crítica de mensagens e proteção nas redes sociais e aplicativos de mensagens. 

Mas a educação midiática não precisa estar restrita à promoção de aulas, oficinas e palestras. Os meios de comunicação, sobretudo o jornalismo, têm grande responsabilidade em educar audiências, incorporando à sua agenda temas sobre segurança digital, prevenção a golpes, verificação de informações e expandindo a compreensão sobre o funcionamento dos algoritmos e da inteligência artificial. 

Sem traçar ações que considerem as especificidades e necessidades de pessoas idosas, a sociedade, o Estado, as plataformas e meios de comunicação insistem em condená-las ao isolamento e à inaptidão que reforçam sua vulnerabilidade e apagamento no mundo de hoje, que é digital. Para além de uma lógica de inclusão que facilita o acesso, mas não a educação e a proteção nos ambientes digitais, é preciso estratégias que ampliem a fluência digital da pessoa idosa de forma segura e verdadeiramente emancipatória.

Imagem destacada: Peopleimages.com – YuriArcurs / Canva Pro

Bruno Ferreira

Consultor em educomunicação e educação midiática. Doutorando em Educação pela FEUSP, mestre em Ciências da Comunicação e especialista em Educomunicação pela ECA/USP. É coordenador pedagógico do Instituto Palavra Aberta, docente da pós-graduação em Proficiência em Tecnologias Digitais para uma Educação Empreendedora, do Sebrae-DF, e formador de professores da SME São Paulo. Foi consultor da UNESCO e professor de comunicação e Desenvolvimento Social do Senac-SP.

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