Decodificar textos de mídia e refletir sobre a confiabilidade de informações em circulação parecem ser habilidades a serem desenvolvidas com crianças já alfabetizadas ou com adolescentes que já possuem alguma autonomia no acesso e busca por informações nos ambientes da internet. Essa ideia, no entanto, é equivocada.
Crianças podem refletir sobre as mídias e exercitar sua autoexpressão desde o começo de seu processo de escolarização, mas de forma adequada à sua idade. Na educação infantil, estratégias lúdicas, como brincadeiras, encenações e exploração de ambientes e ferramentas contribuem para sua formação integral e podem envolver a tematização das mídias e da informação, nesse contexto, desde que intencionalmente planejadas pela educadora ou educador.
Os campos de experiência da BNCC, que são a forma de organização curricular da educação infantil, representam os recortes da realidade que as crianças vivenciam no cotidiano e que devem ser propostos nas escolas para garantir o desenvolvimento e a aprendizagem. A BNCC estrutura esses campos para assegurar os seguintes direitos de aprendizagem das crianças, como conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. A seguir, explico os cinco campos da experiência da BNCC e apresento alguns insights de como a educação midiática pode ser desenvolvida em cada um deles.
- O eu, o outro e o nós: este campo foca no desenvolvimento da identidade, autonomia, socialização, empatia e no reconhecimento das diferenças e do respeito. Nesse contexto, pode ser proposto um exercício sobre a representação de emoções por meio de selfies, tiradas pelas próprias crianças, com o auxílio da(o) docente, e com a intenção de levá-las a refletir sobre a diversidade de formas de manifestação de si e dos outros. Outra possibilidade, descrita em detalhes em um plano de aula que desenvolvi para o EducaMídia, é incentivar as crianças a decodificar capas de livros infantis sobre diferentes arranjos familiares, por meio de perguntas que as levam a interpretar e refletir sobre a narrativa presente na imagem. Nesse caso, a intenção é que elas compreendam não apenas as diferentes possibilidades de abordar o tema família, mas também que grupos familiares são diversos e todas as suas formas de representação merecem respeito.
- Corpo, gestos e movimentos: campo que enfatiza a importância da exploração do espaço e do mundo por meio do corpo. Promove o desenvolvimento da coordenação motora, da expressão corporal e da consciência sobre o próprio corpo. Nesse âmbito, crianças podem criar vídeos sobre a importância de desenvolver hábitos saudáveis, como uma boa alimentação e a higiene, contexto no qual são incentivadas pela(o) docente a expressar suas descobertas por meio de uma produção audiovisual simples e, assim, refletir sobre a comunicação como um ato intencional. Outra possibilidade é propor às crianças a observação de exemplos de como as mídias que exploram o corpo, gestos e movimentos, como em trechos de propagandas ou anúncios de alimentos saudáveis ou produtos de higiene, provocando-as a identificar as estratégias utilizadas (cores vibrantes, músicas alegres, personagens animados) para convencê-las.
- Traços, sons, cores e formas: visa o desenvolvimento da sensibilidade estética, da criatividade e da expressão artística e musical. As crianças exploram diferentes linguagens como artes visuais, música e expressões gráficas. A educação midiática pode ser atrelada a este campo a partir de atividades de observação, registro e expressão das percepções das crianças sobre a natureza. Utilizando diferentes linguagens, como a fotografia e o vídeo para capturar formas, cores e sons do ambiente ao seu redor, as crianças podem criar uma exposição física ou digital, com a intenção de sensibilizar uma audiência real sobre a importância de cuidar do meio ambiente, refletindo, a partir da mediação docente, sobre o papel da comunicação para sensibilizar pessoas para a sustentabilidade ambiental.
- Escuta, fala, pensamento e imaginação: este campo enfatiza o desenvolvimento da linguagem oral e escrita, do pensamento crítico, da imaginação e da comunicação. Estimula a escuta atenta e a expressão verbal. Uma abordagem de educação midiática pertinente a este eixo está descrita em detalhes em um plano de aula que escrevi para o site do EducaMídia, com base na proposta de atividade desenvolvida pela Profª Valdilene Nascimento e seus colegas do Centro de Educação Infantil (CEI) Elizabeth Souza Lobo Garcia, de São Paulo, que propõem uma entrevista coletiva com uma personagem da peça “A grande beterraba” (uma adaptação de “O grande rabanete”), encenada pelos docentes da escola para as crianças. Durante as declarações, a personagem era imprecisa ou equivocada nas respostas acerca da história, e a professora que mediava a conversa provocava as crianças a confrontar o que haviam visto na encenação (tomada como fato) com o que foi dito pela personagem (tomado como opinião ou mentira). Essa atividade tem o objetivo de levar as crianças a comparar versões de uma mesma história, refletindo sobre a diferença entre um fato e sua versão distorcida.
- Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações: este campo foca na exploração e observação do mundo físico e sociocultural. Estimula a curiosidade, a investigação e a aplicação de conhecimentos de matemática e ciências no dia a dia. Uma atividade a ser desenvolvida, na perspectiva da educação midiática, é propor às crianças que identifiquem pequenos problemas no ambiente da escola (como lixo descartado de forma incorreta ou materiais desorganizados na sala de aula) e criem um jornal mural com soluções criativas para transformá-lo em um lugar melhor. Dessa forma, as crianças exercerem a cidadania de forma prática e significativa, compreendendo o papel da mídia e da comunicação na organização de ideias e na transformação da realidade. Outra possibilidade é utilizar sequências de imagens (história em quadrinhos simples ou vídeo em stop-motion) para narrar uma transformação (por exemplo, o crescimento de uma planta ou a mudança do clima), com a intenção de desenvolver a percepção de tempo e quantidade através da organização de informações em uma narrativa midiática, levando-as a compreender a diferença entre uma foto (momento) e um vídeo (sequência de momentos/transformação).
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