Tecnologias na educação: muito mais que recursos subordinados à aprendizagem

É muito comum, nos discursos do campo da educação que defendem a integração das tecnologias digitais nos currículos, o argumento de que estas podem favorecer os processos de ensino e aprendizagem, mas que o processo pedagógico não deve girar em torno delas, mas sim da finalidade de sua adoção. 

Essa ideia, porém, é muito útil à manutenção do currículo de formação básica, tal como o conhecemos, que se referem à formação comum que, no entanto, não explora as tecnologias como objetos de estudo. Se a educação adota as tecnologias como meros instrumentos para a intencionalidade humana de fazer coisas, ainda que em propostas inovadoras e ativas do ponto de vista metodológico, estaremos insistindo em um uso instrumental destas ferramentas em sala de aula.

Esse pensamento, que subordina os usos e apropriações das tecnologias para finalidades outras que não a reflexão sobre as práticas que estas desencadeiam, lamentavelmente faz com que formação docente em tecnologias recaia sobre a limitante compreensão da funcionalidade do uso de plataformas e aplicativos, insistindo no entendimento de que elas são apenas recursos, assim como o caderno de papel, a lousa de giz e a caneta esferográfica o são, embora estes não sejam digitais, mas que seguem tendo usabilidade e função nos dias presentes.

Neste século 21, em que o envolvimento humano com os dispositivos digitais e sua presença cada vez mais frequente no ciberespaço, a relação das sociedades com as inovações tem causado transformações socioculturais relevantes demais para limitar as tecnologias a simples recursos, como se sua funcionalidade e efeitos decorrentes de seus usos não afetassem diretamente os modos de viver, pensar e produzir signos e significados sobre o mundo e a vida.

Hoje, felizmente, os currículos já olham para isso. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) admite desde 2018 a comunicação e a cultura digital como competências gerais a serem desenvolvidas ao longo de toda a educação básica, de modo transversal às disciplinas e ciclos de aprendizagem.

Também a Política Nacional de Educação Digital (Lei nº 4.513 de 2020) reforça a necessidade de desenvolvimento de competências digitais, a partir do ensino de robótica, computação e programação, no contexto da educação básica, ampliando as noções de acesso às tecnologias na escola, a partir de quatro eixos norteadores: inclusão digital da sociedade; educação digital nas escolas; ações de capacitação do mercado de trabalho; e incentivo à inovação, pesquisa e ao desenvolvimento. 

Os currículos, portanto, não podem tratar as tecnologias apenas como recursos para a aprendizagem. Trata-se de um novo objeto de estudo que faz com que algumas redes, inclusive, as estabeleçam em seus currículos como novas disciplinas, como é o caso de Tecnologia e Inovação, presente no Ensino Médio das redes estaduais de São Paulo e Minas Gerais; e de Cultura Digital, disciplina de 80 horas anuais das escolas de tempo integral do estado do Ceará.

No âmbito do Ensino Fundamental, destaco a experiência da rede carioca, com os Ginásios Educacionais Tecnológicos (GETs), que promovem, por meio do STEM e cultura maker, atividades de resolução de problemas e criação de artefatos em estruturas chamadas de “colaboratórios”, salas de experimentação e criação coletiva nas quais as práticas pedagógicas nessa perspectiva acontecem. Além disso, a rede do Rio de Janeiro também oferece o componente curricular de Lógica de Programação, para os anos iniciais, baseando-se nas diretrizes da BNCC de Computação.

Iniciativas como essas expandem a reflexão na escola sobre como as tecnologias digitais impactam no fazer humano, nas atividades desempenhadas muitas vezes de forma automática e irrefletida no dia a dia, que tendem a naturalizar a tecnologia, como se esta estivesse desde sempre à disposição. Se um estudante usa, por exemplo, um tablet para buscar informação na internet, em vez de usar um livro ou enciclopédia, os processos de identificação e seleção de conteúdos são distintos por causa dos recursos usados. E isso, entre outros usos das tecnologias, precisam ser objeto de análise e discussão na escola, não apenas a atividade de pesquisa em si. 

Pensar nos instrumentos aos quais recorremos para o desempenho das mais diversas atividades é fundamental para que as novas gerações aprofundem o entendimento acerca de suas práticas a partir de dispositivos digitais e todas as consequências que essa relação engendra, tanto positivas, em termos de praticidade, como também negativas. 

O automatismo na apropriação de qualquer recurso, no contexto de qualquer prática, que não permite reflexão sobre a relação estabelecida entre humano e ferramenta, é donoso, uma vez que alguns usos e finalidades do emprego da tecnologia têm sido prejudiciais à sociedade. A insistência em invisibilizar suas especificidades nas práticas educativas leva a formação de novas gerações acríticas com relação aos recursos digitais. É preciso, portanto, não apenas aprender com as tecnologias, mas sobre elas também, o que envolve conhecer e explorar suas funcionalidades, mas principalmente problematizar os efeitos dos seus usos. 

Imagem: mattjeacock / Getty Images Signature

Bruno Ferreira

Consultor em educomunicação e educação midiática. Doutorando em Educação pela FEUSP, mestre em Ciências da Comunicação e especialista em Educomunicação pela ECA/USP. É coordenador pedagógico do Instituto Palavra Aberta, docente da pós-graduação em Proficiência em Tecnologias Digitais para uma Educação Empreendedora, do Sebrae-DF, e formador de professores da SME São Paulo. Foi consultor da UNESCO e professor de comunicação e Desenvolvimento Social do Senac-SP.

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