Donald Trump tomou posse, nesta semana, como o 47º presidente dos Estados Unidos, com um discurso sexista e supremacista, algo que não surpreende, embora assuste. Uma novidade em sua posse, que reitera seu poder, é o apoio explícito de donos de grandes empresas de tecnologia, como Elon Musk, do X, e de Mark Zuckerberg, da Meta, ao seu segundo governo que acaba de começar.
Antes mesmo da posse, este último fez uma declaração pública que preocupou o mundo, por anunciar que o Facebook voltaria às origens, ao dispensar a verificação de fatos por organizações independentes, substituindo-a por “notas da comunidade”, em que os próprios usuários podem complementar ou contextualizar os conteúdos veiculados, simplificando seu modelo de moderação. O argumento do empresário é prezar pela liberdade de expressão, pois, segundo ele, a verificação excessiva leva à censura de opiniões divergentes.
Além disso, o dono da Meta afirmou que estaria ao lado de Trump no combate à censura em outros países “para pressionar os governos ao redor do mundo que estão perseguindo empresas americanas e pressionando para censurar mais”, disse ele em vídeo publicado em 7 de janeiro.
Desde então, usuários sobretudo do Facebook vêm relatando alguns retrocessos na rede social, como a mudanças nos ícones referentes às bandeiras LGBTs, antes nomeadas como “Orgulho”, “Transgênero” e “Não-binário”, passaram a se chamar “Arco-íris”, “Algodão doce” e “Pôr do sol dourado”, num movimento de, no mínimo, invisibilidade desses grupos. Vale lembrar ainda que as mudanças nas políticas da Meta passaram a admitir que doenças mentais sejam associadas a gênero e orientação sexual.
É claro que o posicionamento de Zuckerberg demonstra sua rendição a lógicas conservadoras e a uma perspectiva de liberdade de expressão – condizente com a Constituição dos EUA – mais permissiva que a nossa, que estabelece limites a esse direito, como a proteção à honra, à vida privada, à imagem e à reputação de terceiros.
Os usuários das redes sociais estão, portanto, reféns de mudanças repentinas, arbitrárias e autoritárias dos mecanismos de governança desses espaços e dos seus algoritmos, que podem passar a difundir ainda mais conteúdos nocivos, como desinformação e discurso de ódio, em nome de um liberdade de expressão selvagem, que não leva em conta que a ausência de limites e de verificação promove um ambiente informacional altamente perigoso e injusto. É preciso considerar que esse alinhamento da Meta a Donald Trump pode fazer com que narrativas da extrema direita sejam priorizadas e blindadas em suas redes em detrimento de outras, que lhes fazem contraponto.
É claro que essas mudanças devem fazer parte de novos debates no contexto das práticas de educação midiática e educomunicação. É preciso problematizar essas decisões, refletir sobre o autoritarismo e os interesses que orientam as políticas dessas empresas, além de estimular o desenvolvimento do hábito da verificação das informações, reiterando a necessidade da diversificação de fontes confiáveis, fora das redes sociais.
Mas se por um lado as novas políticas da Meta reforçam a necessidade de educação midiática, pelo risco de aumento da desinformação e discursos de ódio, por outro o avanço da extrema direita nos Estados Unidos também ameaça qualquer abordagem crítica na educação. Iniciativas que promovem a reflexão e a emancipação das pessoas dos ditames das plataformas, especialmente se problematizam as decisões e mudanças algorítmicas, evidenciando seu obscurantismo e arbitrariedades, podem sofrer com boicotes, perseguições e esvaziamentos. Acompanhemos o desenrolar disso tudo.
Crédito da imagem: Chris Putnan / Canva Pro





