Ao visitar a Biblioteca do Livro Didático, nas dependências da biblioteca da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, tive a alegria de encontrar, na última prateleira do acervo, um conjunto de caixas de arquivos que pertenceram à falecida professora Mariazinha Fusari, docente da instituição e uma grande referência para o campo da Educomunicação.
Pude explorar mais detidamente, para um exercício de análise de manuais e livros escolares, uma pasta que guarda um manual datilografado intitulado “Os recursos audiovisuais (material para completar o laboratório de aprendizagem ou auto-instrução em recursos audiovisuais)”. Segundo sugere o próprio material, este integrava as ações formativas do setor audiovisual do Grupo Escolar Ginásio Experimental Dr. Edmundo Carvalho, localizado, à época, no bairro da Lapa, zona oeste da capital paulista.


Capa da pasta, com inscrição manuscrita, e capa do manual didático (Bruno Ferreira)
A organização do material em partes – apresentação, definição e classificação dos recursos e a explicação do funcionamento do setor audiovisual, incluindo a menção à Mariazinha Fusari como integrante da equipe – demonstra uma estrutura lógica para a disseminação do conhecimento sobre o tema. Suas definições concisas e instruções práticas sobre o uso de recursos disponíveis à época, como quadros de aviso, mural, álbuns seriados, transparências, slides, filmes educativos e mapas, reflete um contexto educacional em que a novidade tecnológica do audiovisual começava a despertar o interesse pedagógico.
A proposta era, aparentemente, complementar a instrução e promover a autoaprendizagem entre os docentes interessados em usar tais recursos para ensinar. A iniciativa provavelmente pioneira, tinha um caráter mais instrumental e menos reflexiva sobre o papel das mídias em si. No entanto, pesquisas recentes ainda demonstram que essa conduta com relação às mídias na educação ainda persiste, mesmo passados mais de meio século da iniciativa do grupo escolar paulistano e com transformações tecnológicas gritantes desde então.
Quase 55 anos depois da autoria desse material, ao confrontarmos essa iniciativa com o panorama atual da formação em educação midiática, torna-se evidente um significativo avanço, marcada pela transição de um foco no “usar mídias na educação” para o crucial “ensinar sobre as mídias”.
Esse avanço se deve pelo reflexo das transformações que os usos e apropriações das novas tecnologias fomentaram na sociedade, tornando a abordagem das mídias na educação mais urgente e complexa, ampliando sua presença nas práticas pedagógicas de meros recursos de apoio ao ensino e à aprendizagem para se tornarem objeto de estudo no contexto da formação geral básica.

Mariazinha Fusari (Acervo Pessoal)
Nesse contexto, o trabalho de Mariazinha Fusari precisa ser referenciado e reverenciado. Pedagoga formada pela PUC, artista plástica formada pela FAAP e doutora em Psicologia pela USP, foi arte-educadora e co-fundadora do Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo e se dedicou, ainda nos anos 1980, a pesquisar sobre o papel da televisão na formação de professores.
Ela não era autora do material que encontrei. As autoras eram Maria José Guedes e Rosaly M. Soares de Oliveira, integrantes do setor audiovisual do Grupo Escolar Ginásio Experimental Dr. Edmundo Carvalho. Ainda assim, a falecida professora da Faculdade de Educação da USP contribuiu para pavimentar o caminho para reflexões mais aprofundadas sobre o potencial das mídias na educação, um legado que se estendeu ao longo de sua trajetória acadêmica. Sua atuação demonstra uma visão pioneira sobre a importância de subsidiar professores com ferramentas e conhecimentos para além do ensino tradicional.
A contribuição de Mariazinha Fusari, mesmo nos primórdios da formação em mídias, lança uma luz sobre a importância de um olhar atento às transformações tecnológicas e suas implicações pedagógicas. O material de 1970, com suas limitações e seu caráter inaugural, serve como um testemunho do início de um esforço que nos trouxe à compreensão da educação midiática como um componente indispensável na formação de cidadãos críticos e engajados na sociedade da informação. O avanço do “usar para ensinar” para o “ensinar sobre” representa um amadurecimento da nossa compreensão sobre o papel das mídias na educação e na vida.
Imagem destacada: bunusevim / Getty Imagens





