A prefeitura de São Paulo anunciou em seu site, no último dia 15 de agosto, uma notícia em que afirma a Educomunicação como uma das novas disciplinas integrantes do projeto de expansão das escolas de período integral da rede municipal, que estendem seu funcionamento de 7 para 9 horas diárias, totalizando 50 horas/aula semanais para os estudantes do Ensino Fundamental. Participam dessa modalidade cerca de 414 mil estudantes, em 444 escolas da rede. No total, a rede municipal de São Paulo tem cerca de 1 milhão de estudantes.
A notícia afirma: “A nova matriz curricular traz disciplinas inéditas, como Jogos e Estratégias de Raciocínio Lógico, Escrita e Educomunicação e Investigações e Inovações, além de reforço em Literatura e Educação Digital. O objetivo é oferecer uma formação mais completa, desenvolvendo competências cognitivas, criativas e socioemocionais”. O conteúdo, no entanto, não diz a partir de quando essa matriz passa a valer.
Se por um lado a proposta de tornar a Educomunicação uma disciplina específica amplia seu acesso aos estudantes, fazendo com que seja cotidiana a quase metade dos alunos da rede, por outro sua associação com a Escrita (a disciplina parece ser “Escrita e Educomunicação”) pode limitá-la a práticas meramente textuais, desconsiderando o que a abordagem tem de mais rico: o contato habitual com diversas linguagens midiáticas para o exercício da autoria.
Não sabemos, no entanto, a concepção de “Escrita” adotada pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME-SP) nesse contexto. Essa noção, na contemporaneidade, se expande, assim como a ideia de “Leitura”. Ler e escrever, no contexto da cultura digital, envolve, necessariamente, fruir por uma diversidade de modalidades textuais presentes nas plataformas digitais, como o áudio, o vídeo, a fotografia, além dos gêneros ainda mais complexos, chamados multimídia e transmídia, que envolvem mais de uma linguagem na concepção de conteúdos.
As práticas de Educomunicação da rede paulistana já têm dado conta dessa complexidade. Os estudantes que participam dos projetos educomunicativos exploram, em suas práticas de produção autoral, o audiovisual e o podcast.
Em pesquisa que realizamos em 2024, para uma consultoria da Unesco, em que foram entrevistados estudantes e docentes participantes dos projetos educomunicativos da rede paulistana, constatamos que a maior parte dos projetos do Imprensa Jovem, programa que atualmente é o carro-chefe da Educomunicação no município, recorre ao digital, sobretudo às redes sociais, a partir das quais conseguem ultrapassar os muros da escola, consolidando uma prática de de comunicação que não se restringe à própria comunidade escolar.
Essa realidade nos leva ainda a estranhar a desconexão da Educomunicação enquanto disciplina (ao menos aparentemente) da Educação Digital. Já trouxemos aqui uma informação recente que, por determinação do MEC, a Educação Digital e Midiática deverá ser um componente obrigatório nos currículos das redes de ensino, a partir de 2026. A prefeitura de São Paulo, aproveitando esse ensejo, deveria entender as práticas de Educomunicação, existentes no âmbito da SME desde 2001, como uma prática que promove a educação midiática, tal como a própria Unesco reconhece, e fundir sua proposta com aspectos da educação digital.
Sabemos que a abordagem educomunicativa não se restringe a práticas de educação digital, uma vez que a autoria do estudante pode também se dar em contextos desconectados, a partir de mídias analógicas e artesanais. No entanto, separar as duas propostas pode apontar para o isolamento da Educomunicação como uma prática que não dá conta de problematizar os usos e apropriações dos recursos digitais pelos estudantes, algo que contradiz o que ocorre atualmente.
A iniciativa de transformar a Educomunicação em disciplina leva à demanda de efetivamente consolidar uma matriz curricular na área, algo que, até o momento, não existe. Isso envolve traçar os conteúdos programáticos para cada série do Ensino Fundamental, que envolvem saberes da comunicação, das linguagens midiáticas, dos direitos humanos e da cultura digital, além detalhar as competências que essa nova disciplina pretende desenvolver.
A forma como essa nova disciplina será implementada determinará se ela dará conta do potencial transformador que os projetos do Imprensa Jovem alcançam. É fundamental que a SME-SP aproveite essa oportunidade para construir um currículo – com ampla participação de docentes e estudantes que já atuam em projetos educomuncativos – que valorize a autoria em todas as suas formas, incluindo as digitais e midiáticas, em sintonia com as mais recentes diretrizes da educação brasileira.
Imagem destacada: Andressa Luzirão / Instituto Devir Educom





