Diversos veículos de imprensa publicaram a notícia de que o influenciador digital Felipe Neto havia anunciado sua candidatura à presidência da república em um vídeo para suas redes sociais. A mensagem, no entanto, tratava-se de uma ironia evidente, no contexto de uma peça que integra uma estratégia de divulgação de um clube de livros do influenciador.
O discurso, com referências à obra clássica 1984, de autoria de George Orwell, anunciava, além da suposta candidatura, o lançamento de uma nova rede social pelo empreendedor, chamada “Nova Fala”. Tudo não passava, porém, de uma “piada publicitária”, evidente tanto para seguidores de Felipe Neto, quanto para pessoas mais atentas que, no mínimo, questionaram o tom e o conteúdo da fala.
A maior parte dos veículos de imprensa, no entanto, apenas tratou de relatar o que foi dito sem sequer levantar a suspeita sobre a intenção do enunciador, que estava apenas encenando um personagem. O comportamento de manada de redatores, neste caso, revela que o trabalho da imprensa, em parte ancorado em um vazio jornalismo declaratório – que apenas reproduz o que uma personalidade disse em um contexto específico -, pode ser bastante acrítico.
De certa forma, foi mais um episódio em que o jornalismo profissional contribuiu para disseminar desinformação. Ainda que a intenção dos veículos não tenha sido a de enganar seus leitores, o erro de interpretação do discurso de Felipe Neto levou jornalistas profissionais a considerar como informação algo que não passava de uma piada, com a intenção de chamar a atenção do público para um empreendimento.
Em formações para professores e estudantes em educação midiática, sobre desinformação, costumo endossar a necessidade de desenvolver habilidades de letramento informacional para evitar produzir ou disseminar conteúdos falsos, enganosos ou equivocados. Isso envolve saber buscar, selecionar e avaliar a confiabilidade da informação. No entanto, não foi por falta de letramento informacional que a imprensa interpretou mal o discurso de Felipe Neto. A debilidade foi em análise crítica da mídia.
Essa outra competência, que junto com o letramento informacional configura a leitura crítica da mídia, diz respeito a saber decodificar mensagens de mídia, de modo a reconhecer e diferenciar propósitos e intencionalidades nos conteúdos enunciados. Diferenciar fato de opinião, informação de piada, por exemplo, são habilidades de alguém que sabe analisar criticamente uma mensagem. Uma interpretação equivocada, portanto, também contribui para a produção de conteúdos que desinformam.
Obviamente que esse descuido não anula em absolutamente nada a importância da imprensa numa sociedade democrática. E é justamente pela importância de seu papel social que essa crítica é importante. Igualmente relevante é considerar que o ritmo de trabalho do jornalista de redação, que tem que dar conta de tantas apurações diariamente, afeta a qualidade do seu trabalho, sendo um obstáculo para que sua atividade seja mais refletida e menos automatizada.
O repertório do jornalista, como já discuti no meu livro Jornalismo e educação: competências necessárias à prática educomunicativa (Appris, 2022), é essencial às práticas de educomunicação e de educação midiática, uma vez que esse profissional conhece os processos e métodos rigorosos para coletar, analisar, selecionar e construir informações, o que torna sua contribuição aos processos educativos bastante relevante. Por isso, se espera dele, antes de qualquer outro agente social, o cuidado na interpretação dos fatos e, igualmente, em sua divulgação para suas audiências.
Esse episódio serve de alerta. A ânsia pela novidade e a reprodução acrítica de declarações, mesmo de figuras públicas com histórico de ironia e engajamento em estratégias de marketing, podem levar a equívocos que, ainda que não intencionais, contribuem para a desinformação. A urgência do cotidiano jornalístico não pode justificar a ausência da análise crítica, uma competência fundamental que diferencia o jornalismo profissional de meros replicadores de conteúdo. Por isso, os veículos de imprensa devem melhorar as condições de trabalho, além de investir no desenvolvimento do repertório e da capacidade analítica de seus profissionais, para que possam cumprir bem o seu papel.
Imagem: SolStock / Getty Images Signature





