Educom e educação midiática: abordagens humanizadas e críticas frente aos desafios da cultura digital

Este é o primeiro texto de muitos (oxalá!) desse espaço de conversa sobre educomunicação e educação midiática, temas aos quais tenho me dedicado há 13 anos. A ideia é que por aqui eu possa expressar algumas ideias sobre essas áreas e suas adjacências, a partir das minhas experiências práticas, como coordenador pedagógico do EducaMídia e também como consultor independente, e de pesquisa, como doutorando em Educação na FEUSP.

Educomunicação e educação midiática são meus temas de vida. Não apenas porque têm sido a razão de parte considerável da minha existência, mas porque entendo que a vida de muita gente pode ser transformada a partir dessas abordagens, sobretudo a partir da escola, numa perspectiva integral de educação, que vai muito além do ensino e aprendizagem. Trata-se da formação de valores democráticos, de uma construção de um forte senso de cidadania calcado, fundamentalmente, na comunicação e na participação.

Entendo que deve ser um objetivo da escola desenvolver uma atitude efetivamente dialógica e democrática entre os estudantes, bem como estimular a reflexão sobre as mídias como instância na qual acessamos, produzimos e disseminamos mensagens. Por isso, é preciso qualificar essa complexa relação que estabelecemos com os meios de comunicação, sobretudo nas plataformas digitais, onde somos, ao mesmo tempo, autores e audiência de discursos diversos.

Nesse contexto, a educomunicação compromete-se a estabelecer processos efetivamente comunicativos, que contemplem o diálogo entre as pessoas, a horizontalidade das relações para que haja participação, de fato, e transformação social. Esses princípios precisam ser endossados nos tempos presentes permeados pela instantaneidade e velocidade da cultura digital, cujas redes sociais, em vez de aproximar pessoas e promover acesso à informação contribuem para nosso adoecimento psíquico e para a desinformação.

O filósofo sul-coreano Byung-chul Han discute muito bem essa questão em um de seus últimos livros publicados no Brasil, intitulado A crise da narração. Nele, o autor afirma que esses espaços virtuais, de hiperestimulação, em razão da instantaneidade e rapidez dos conteúdos, nos deixam em estado de permanente devir. Além disso, segundo Han, as redes sociais acabam sendo espaços ruidosos de transmissão, mas não de interlocução, de troca, de narração.

Algo que Christoph Türcke, em seu livro Sociedade excitada – filosofia da sensação chama de “compulsão pela emissão”, ou seja, a vontade de expressão sem, no entanto, cuidar da relação e da busca por entendimento, algo basilar à educomunicação que, num contexto de intensificação do hedonismo e do individualismo que permeiam a cultura contemporânea, contribui para reavivar os valores e práticas de comunhão entre as pessoas, fundamentais ao desenvolvimento humano.

A educação midiática, por sua vez, é uma prática que coloca as mídias e a informação como objetos de estudo, estimulando a reflexão acerca dos conteúdos que acessamos e produzimos, para tornar nossa relação com as mídias e com a informação mais responsável e crítica. 

Gosto de um discurso que temos, no EducaMídia, acerca de um dos impactos da educação midiática: a ampliação do entendimento da internet como um território. Como tal, precisa ser mapeado para ser melhor explorado. Isso quer dizer que é preciso aprender a identificar informações confiáveis e pertinentes, além de reconhecer os diferentes propósitos e intenções das mensagens de mídia. 

Além disso, é necessário ocupar esse espaço a partir de uma conduta ética específica: com uma ética comprometida com os direitos humanos e uma responsabilidade criteriosa no acesso, produção e difusão de informação. Trata-se de exercer o direito à comunicação, explorando as minúcias do funcionamento dos ecossistemas midiáticos e informacionais. 

Nesse sentido, a educação midiática compromete-se com o desenvolvimento de competências críticas para que (principalmente) estudantes e docentes tomem decisões refletidas nas interações com os textos de mídia e o uso de recursos tecnológicos para a autoexpressão.

O casamento entre as abordagens da educomunicação, que adota a comunicação como processo educativo inclusivo e participativo, e da educação midiática, que assume as mídias e a informação como saberes disciplinares fundamentais à formação cidadã dos tempos presentes, é fundamental para expandir a compreensão dos mecanismos e lógicas ambivalentes que permeiam as plataformas e recursos digitais, bem como para reavivar valores que nos façam estar na internet sem perder a disposição de lidar com as diferenças e com o contraditório.

Bruno Ferreira

Consultor em educomunicação e educação midiática. Doutorando em Educação pela FEUSP, mestre em Ciências da Comunicação e especialista em Educomunicação pela ECA/USP. É coordenador pedagógico do Instituto Palavra Aberta, docente da pós-graduação em Proficiência em Tecnologias Digitais para uma Educação Empreendedora, do Sebrae-DF, e formador de professores da SME São Paulo. Foi consultor da UNESCO e professor de comunicação e Desenvolvimento Social do Senac-SP.

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