Educar para as mídias por meio de competências: o que se diz sobre isso mundo afora?

Faz tempo que temos rejeitado, pelo menos no campo das ideias, a perspectiva de ensino alicerçado unicamente na transmissão de informações dos professores para os estudantes. Por mais que essa seja uma estratégia simples e ainda bastante comum, entende-se que essa prática deve ir além da memorização de informações, oportunizando a investigação e a criação, perspectiva em que o conhecimento é construído, uma vez que é aplicado, não apenas assimilado ou absorvido. 

Nesse sentido, educar para a comunicação e para as mídias deve ser um processo ativo, em que se os saberes são desenvolvidos à medida que os estudantes o relacionam com a realidade, numa lógica construtivista, que entende o conhecimento como essencialmente subjetivo, produto da interpretação humana, construído em processos de interação social, nos quais a realidade é refletida, debatida e experimentada coletivamente. 

Essa perspectiva, que mobiliza múltiplas capacidades do estudante, formando-o integralmente,  pode ser compreendida em, pelo menos, três pilares: conhecimento, que diz respeito aos saberes de domínio teórico; habilidades, que se referem aos saberes práticos; e as atitudes, que dizem respeito aos valores e à convivência. Essa é, grosso modo, a base do que chamamos de competência na educação.

Esse conceito, adotado no Brasil e em outras partes do mundo, tem fundamentado a formulação dos currículos contemporâneos. O pedagogo espanhol José Gimeno Sacristán, em obra organizada por ele, intitulada Educar por Competências: o que há de novo? (Artmed, 2011), explica que essa ideia, apesar de abrangente e sem definição única, pretende especificar as capacidades que os sujeitos devem desenvolver nas diferentes áreas do conhecimento e ciclos de aprendizagem, ao longo da educação básica.

Nessa linha, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) tem liderado há décadas o esforço internacional para definir competências midiáticas e informacionais para estudantes e professores. Através de currículos e materiais de referência, promove o conceito de Alfabetização Midiática e Informacional (AMI) para que cidadãos possam acessar, analisar, produzir e difundir conteúdos midiáticos de forma crítica e responsável.

Em 2021, a UNESCO lançou seu último currículo, intitulado Think critically, click wisely [Pensar criticamente, clicar sabiamente], ainda sem tradução para o português, atualizando as competências da AMI para a era digital. A publicação abrange temas como processamento de informação, desinformação, inteligência artificial e o impacto das mídias nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Além dessas referências, outros autores, mundo afora, buscam especificar em que consistem essas competências, sobretudo numa perspectiva curricular transversal, isto é, que possa ser desenvolvida ao longo de toda escolaridade, nas diferentes disciplinas ou de forma interdisciplinar. O canadense Tony Bates, especialista em educação a distância e tecnologias digitais, em seu livro Educar na Era Digital: design, ensino e aprendizagem (Artesanato Educacional / ABED, 2017), destaca sete habilidades que considera importantes numa sociedade do conhecimento. 

Três delas dialogam mais objetivamente com a proposta de educação midiática: a habilidade de comunicação, que requer o uso de mídias sociais além das tradicionais formas de leitura e escrita; competências digitais, no uso de tecnologias nas atividades cotidianas, de forma atrelada ao conhecimento das diferentes áreas; e a gestão do conhecimento, que diz respeito ao letramento informacional, que faz com que as pessoas encontrem, avaliem, analisem, apliquem e divulguem informações em diferentes contextos.

Globalmente, há uma coesão interessante e importante em torno de como as competências midiáticas e informacionais se estruturam. Elas deixam claro que o letramento midiático e informacional vai muito além de usar e refletir sobre mídias. Elas mobilizam conhecimentos específicos sobre o universo da comunicação e da cultura digital, os quais docentes precisam dominar para concretizar, em estratégias pedagógicas, o desenvolvimento de saberes, habilidades e atitudes éticas e responsáveis com os estudantes. O terreno está preparado e, a partir dele, boas experiências, nas redes públicas de ensino brasileiras, têm sido empreendidas gradualmente. Esperemos bons frutos em breve.

Imagem: jacoblund / Getty Images Signature

Bruno Ferreira

Consultor em educomunicação e educação midiática. Doutorando em Educação pela FEUSP, mestre em Ciências da Comunicação e especialista em Educomunicação pela ECA/USP. É coordenador pedagógico do Instituto Palavra Aberta, docente da pós-graduação em Proficiência em Tecnologias Digitais para uma Educação Empreendedora, do Sebrae-DF, e formador de professores da SME São Paulo. Foi consultor da UNESCO e professor de comunicação e Desenvolvimento Social do Senac-SP.

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