No cenário educacional contemporâneo, a tecnologia é frequentemente confundida com a própria mídia. No entanto, para o professor que busca uma prática de educação midiática efetiva, é fundamental compreender que o verdadeiro desafio pedagógico reside na compreensão das mídias como ambientes de socialização e sistemas de representação. Antes de tudo, portanto, é preciso desfazer o equívoco de que mídia e tecnologia são sinônimos.
Como explica o autor Tony Bates, na obra Educar na Era Digital, as tecnologias, por si só, não comunicam, elas são as condições materiais para que haja circulação de significados nessas plataformas. E é nisso que consiste o conceito de mídia. Mais do que simples aparelhos ou ferramentas técnicas, são ambientes de socialização das representações do mundo, a partir das quais é possível produzir, acessar, disseminar e discutir os valores da cultura e da sociedade. Elas existem graças às condições tecnológicas para a criação e difusão de mensagens, o que envolve lançar mão de linguagens e suportes para materializar as mensagens que representam o mundo.
Ao longo da história da humanidade, diferentes condições materiais possibilitaram a emergência de formas específicas de mídia. O sociólogo Manuel Castells, em sua obra Sociedade em Rede lembra que a primeira delas foi a oralidade (a língua falada), depois veio a invenção das escrita, que permitiu o registro das informações. Na sequência, a cultura escrita, com a invenção da imprensa de Gutenberg, permitiu a massificação da informação e do conhecimento, ainda pela leitura e escrita.
Mais tarde, ainda segundo o autor, a cultura de massas, com o cinema, o rádio e a TV, complexifica esse cenário, consolidando os meios de comunicação em larga escala, e posteriormente as mídias passam a ser produzidas em suportes ainda mais diversificados com o advento das plataformas digitais. Na atualidade, o acirramento da cultura digital endossa o caráter interativo e segmentado dos ambientes virtuais, em que o cidadão comum é, além de audiência, produtor de conteúdos midiáticos em diferentes linguagens.
Em processos de ensino e aprendizagem sobre o conceito de mídia, o referencial teórico de David Buckingham, abordado na obra Manifesto pela educação midiática, pode ser muito útil. Esse autor britânico propõe quatro conceitos que permitem analisar criticamente as mídias e suas mensagens, de forma ampla, independentemente do suporte tecnológico. Detalho a seguir esses quatro conceitos.
Linguagem (como as mídias comunicam ideias). Na cultura digital, a linguagem midiática é multimodal, pois articula texto, som e imagem na construção das mensagens, além de ser hipertextual, o que permite a mobilidade entre textos na internet. É possível problematizar a linguagem midiática em sala de aula, propondo que estudantes reflitam sobre as escolhas autorais das mensagens que acessam ou produzem, levando-os a refletir sobre o emprego de recursos sonoros e visuais na construção de conteúdos e sobre suas intenções e efeitos, por exemplo. A escolha de termos, palavras específicas em detrimento de outras também faz parte da problematização da linguagem.
Representação (o que as mídias dizem sobre o mundo). É o ato de enunciar o mundo, afirmando o que ele é. Mas nenhuma representação é neutra, pois ela carrega os valores de quem a produziu. Nas práticas de educação midiática, deve-se estimular a reflexão acerca de que ou quem está sendo representado em determinado conteúdo, quais grupos sociais estão presentes e ausentes, a partir de que vieses e pontos de vistas as mensagens foram construídas. Ao discutir representação, docentes demonstram que as mídias constroem versões da realidade que disputam autoridade e credibilidade junto à opinião pública.
Produção (quem faz as mídias e qual seu propósito). As mídias são produzidas por indivíduos ou organizações com poder e interesses específicos (comerciais, políticos e ideológicos). Em sala de aula, é necessário problematizar as motivações políticas, sociais e econômicas por trás de uma mensagem, seja um post numa rede social, uma campanha publicitária ou uma cobertura jornalística profissional, de uma grande empresa de comunicação, por exemplo. Compreender o lugar da produção é refletir sobre o poder de fazer circular mensagens, com linguagens e representações específicas do mundo, e as consequências desse exercício para a sociedade.
Público (para quem se destinam as mensagens). As mídias são produzidas para grupos aos quais oferecem, com seus conteúdos, informação, prazer e entretenimento. Uma reflexão problematizadora do público leva em conta sua diversidade e, consequentemente, as diversas formas de a sociedade interpretar e se apropriar dos conteúdos midiáticos. Um ponto de partida para essa discussão pode ser o questionamento de como o algoritmo decide o que aparece na timeline dos usuários, levando os estudantes a pensar na segmentação intencional das redes sociais, para manter os usuários conectados.
A abordagem proposta por Buckingham permite que os estudantes compreendam que as mídias não são janelas transparentes para o real, mas sim construções sociais moldadas por interesses e escolhas específicas. Isso vai muito além de uma interpretação restrita às mensagens e o que enunciam, favorecendo uma análise crítica contextualizada, que alcance seus enunciadores, seus lugares de fala e interesses sociais. Ao integrar essas dimensões, a educação midiática firma o compromisso ético de decodificar as estruturas de poder que moldam a nossa percepção da realidade contemporânea.
Imagem: Acervo de David Buckingham





