Tem sido cada vez mais comum, nas redes públicas de ensino, a adoção de agências de notícias escolares como projetos de educomunicação ou educação midiática. Essa proposta consiste na atuação dos estudantes como repórteres da sua própria realidade escolar, realizando coberturas de eventos dentro de sua própria instituição de ensino, na comunidade e também fora dela. Nas ocasiões em que visitam espaços e eventos fora da escola, os estudantes estabelecem um diálogo com pessoas que, não fosse a proposta da cobertura, dificilmente teriam a oportunidade de conhecer e, sobretudo, questioná-las.
As experiências mais recentes nesse sentido são o Projeto Andar, a Agência de Notícias dos Alunos da Rede, presente em 73 escolas da rede municipal do Rio de Janeiro e em expansão, da qual participam estudantes do Ensino Fundamental. Desenvolvido pela MultiRio, Empresa Municipal de Multimeios e pioneira em mídia e educação no Brasil, o Projeto Andar existe desde 2022. Já na Rede Estadual da Bahia, as 86 agências de notícias em funcionamento, em todo o Estado, capitaneada por grupos de estudantes do Ensino Médio, concretiza-se não apenas como um projeto extracurricular, mas como uma nova disciplina da formação geral básica, por enquanto dos estudantes das escolas de tempo integral.
Apesar de uma estratégia recente em novas redes de ensino, ela não é nova. O programa Imprensa Jovem é a experiência mais longeva de jornalismo estudantil no âmbito da educação básica. A rede municipal de São Paulo o mantém desde 2005, envolvendo estudantes da Educação Infantil e do Ensino Fundamental em projetos de comunicação em suas escolas. Neste ano em que completa 20 anos, a Lei Municipal nº 18.268 oficializa o programa na rede da capital paulista. Mas este, por sua vez, é inspirado por iniciativas de educomunicação fora do ambiente escolar, como as coberturas educomunicativas promovidas pela Viração, organização da sociedade civil de São Paulo, que desde 2003 promove o direito humano à comunicação das juventudes.
Embora hoje em dia, a ideia da prática do jornalismo pelos estudantes esteja associada ao letramento midiático e informacional, sobretudo em razão dos avanços das tecnologias digitais e de questões que passaram a ser mais complexas, como a inteligências artificial, a desinformação, o cyberbullying, entre outras, a raiz da proposta está na promoção do direito à comunicação de crianças e jovens. Isso significa garantir a esse segmento social o direito não apenas de se expressarem, mas sobretudo de serem ouvidas.
Sua circulação e produção de conteúdos em eventos, como conferências e congressos, em que não iriam se não fosse a proposta pedagógica de inseri-los nesses ambientes, os colocam diante de autoridades que podem ser questionadas por meninas e meninos sobre as questões que os afetam diretamente. Por essa razão, entende-se que essa estratégia é também política, além de educativa, uma vez que a produção de conteúdo e a inquirição de pessoas adultas, pelos mais jovens, é um ato de incidência destes em diálogos muitas vezes restrito apenas aos adultos, especialistas e autoridades.
Para além do letramento midiático, em que os estudantes na condição de repórteres têm a oportunidade de vivenciar processos de produção de conteúdos, desenvolvendo senso crítico e responsabilidade enquanto autores, os projetos de agência promovem principalmente autoestima dos estudantes e mobilidade, uma vez que são efetivamente inclusivos, não apenas inserindo as crianças e jovens em contextos novos, mas dando a eles um papel nessas ocasiões: o de repórteres, que devem desbravar o ambiente e as pessoas, comunicando suas descobertas para suas audiências.
É muito bom que iniciativas como as agências de notícias sejam, em alguns contextos educativos, a nova estratégia para expandir os letramentos acerca das mídias e das tecnologias digitais, uma vez que estabelecem um contexto específico e desafios concretos, a partir dos quais professores e estudantes vislumbram com mais nitidez seus papéis e mapeiam com mais segurança suas possibilidades de aprendizagem.
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