Redes sociais na educação: usá-las sem se tornar refém de suas lógicas neoliberais

O poder e o alcance das redes sociais são, hoje, inegáveis. Apenas entre o público infanto-juvenil, é uma das principais formas de acesso à informação no dia a dia. A mais recente pesquisa TIC Kids Online, que anualmente traça um panorama nos hábitos digitais de crianças e adolescentes, constatou que 36% dos brasileiros entre 9 e 17 anos usam Instagram, 29% usam YouTube, 27% usam TikTok e 2% usam Facebook. 

Além da forte presença nesses ambientes digitais, a pesquisa apresenta dados referentes ao letramento informacional desse público: 46% acreditam que o primeiro resultado de uma busca é a melhor fonte de informação sobre ela. E 55% acreditam que todo mundo encontra as mesmas informações como resultado de uma mesma pesquisa na internet.

O uso de redes sociais para buscar conteúdos parece algo bastante popularizado, não apenas entre crianças e adolescentes, mas também entre adultos, situação que reforça a necessidade de refletir sobre esses espaços não apenas como meios de socialização, mas como fonte de informação e construção de referências sobre o mundo.

No âmbito da educação, muito já se fala sobre a potência desses espaços no fomento da autoexpressão dos estudantes. Por meio dessas plataformas, as produções autorais escolares podem chegar a públicos para além dos colegas e docentes. Apesar disso, é preciso pensar no quanto o uso exclusivo desses espaços pode condicionar e limitar a expressão, em vez de promover uma experimentação mais diversa e significativa das possibilidades de construir narrativas, a partir da escola.

A lógica da pressa que permeia as redes sociais transformam os conteúdos em meras vitrines e as pessoas, em audiência. Em vez de criar conexões, estabelece um excesso informacional que leva a uma dificuldade de estabelecer uma hierarquização acerca da relevância ou pertinência das mensagens, e a velocidade da sequência infinita de mensagens anula a disponibilidade para qualquer reflexão mais profunda sobre o que vemos.

Propor a criação e a difusão de narrativas mais elaboradas e criativas, com o intuito de estreitar relações com a comunidade ou para ser um canal efetivo de debate, a partir exclusivamente das rede sociais, pode ser uma iniciativa bastante frustrante, justamente pelo ritmo frenético dos conteúdos e, consequentemente, pela baixa disposição das pessoas em agir de forma atenta e empática nesses espaços.

É preciso considerar ainda que as redes sociais são recursos de empresas que se valem do ideal de liberdade para se apropriar de dados pessoais dos seus usuários e expor a eles uma infinidade de conteúdos publicitários. 

É claro que em uma sociedade capitalista todo recurso tecnológico é ambivalente, guardando em si potencialidades interessantes, para além dos interesses comerciais para as quais foram criadas. Mas falar em educação midiática sem problematizar essas relações é simplesmente render-se às lógicas neoliberais que reverberam nesses espaços, que condicionam a expressão e as relações que se estabelecem a mera estratégia de visibilidade publicitária.

Desencorajar o uso de redes sociais e a rejeição de suas linguagens, no entanto, não é algo razoável. Mas as práticas de educomunicação e de educação midiática precisam estimular a consolidação de espaços comunicativos alternativos à ambiência da vitrine das redes e não apenas estimular uma apropriação exclusiva destas, ainda que para fins bastante nobres. Dessa forma, vale usar as redes para o que elas têm de melhor: divulgar narrativas criadas fora dela em vez de usá-las como canal principal de referência dos projetos estudantis.

Adotar uma abordagem multimídia, inclusive off-line, a partir da experimentação da expressão de ideias em murais e fanzines, além de canais autorais próprios em outros espaços da internet, como blogs e sites, poderá favorecer não apenas a construção de mensagens mais profundas pelos estudantes, mas também efetivamente criativas, sem o enviesamento das formas de expressão instantâneas e clichês impostas pelas trends das redes sociais.

Crédito da imagem: Johnny Greig / Getty Images Signature

Bruno Ferreira

Consultor em educomunicação e educação midiática. Doutorando em Educação pela FEUSP, mestre em Ciências da Comunicação e especialista em Educomunicação pela ECA/USP. É coordenador pedagógico do Instituto Palavra Aberta, docente da pós-graduação em Proficiência em Tecnologias Digitais para uma Educação Empreendedora, do Sebrae-DF, e formador de professores da SME São Paulo. Foi consultor da UNESCO e professor de comunicação e Desenvolvimento Social do Senac-SP.

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