A primeira semana de dezembro foi marcada pela viralização do vídeo que mostra uma passageira de um voo sendo constrangida por outra por negar-se a ceder seu assento na janela a uma criança que chorava ao reivindicar o lugar à mãe. A captura e divulgação das imagens da moça, que negou-se a ceder à birra de uma criança, teve como objetivo vilanizar sua atitude. No entanto, a reação ao vídeo foi oposta à expectativa de quem o produziu: os usuários das redes sociais compartilharam as imagens em que a bancária Jennifer Castro foi hostilizada para solidarizar-se a ela, em vez de condená-la.
A repercussão de um conflito ordinário como esse demonstra o tamanho da banalidade que pauta o cotidiano das redes sociais. Apesar de suscitar o debate sobre a importância de mães e pais ensinarem sobre limites às crianças, que nem sempre terão o que desejam, bem como o sentido da palavra “empatia”, distorcido pela autora do vídeo que acusou Jeniffer de não possuir tal virtude por negar-se a trocar de lugar com a criança, esse episódio é uma amostra da naturalização de comportamentos coletivos problemáticos nas redes sociais. O julgamento precipitado dos envolvidos no fato apenas pelo recorte pontual do vídeo que viralizou, além da polarização expressa no equivocado endeusamento de Jeniffer e na cruel condenação à mãe da criança são alguns deles. A seguir, destaco algumas reflexões que o episódio viral pode suscitar no âmbito da educação midiática.
- A importância de conhecer a história completa. Ao contrário do que foi concluído inicialmente, o vídeo não foi gravado pela mãe da criança, mas por outra passageira que indignou-se com a atitude de Jennifer. A dedução equivocada levou a um linchamento virtual da mãe, que não teve qualquer relação com a iniciativa da outra passageira, em constranger Jeniffer, mas foi culpada pela opinião pública pela exposição da bancária no voo. A instantaneidade das redes, no entanto, não dá brechas à digestão completa de um fato, por mais banal que seja. Todos precisam emitir suas opiniões sobre algo que, na verdade, desconhecem a integralidade, como foi este episódio.
- Respeito à imagem e à privacidade alheia. Tanto a passageira que se sentiu no direito de captar e difundir a imagem de Jeniffer para constrangê-la, quanto as pessoas que passaram o vídeo adiante – ainda que com a intenção de discordar da abordagem do vídeo – desrespeitaram o direito à privacidade da bancária, expondo a sua imagem a milhões de desconhecidos. A imprensa seguiu o mesmo caminho, ao escancarar de vez a identidade da moça. Ainda que muitas pessoas optem pela discrição nas redes, é cada vez menos controlável que pessoas ao redor, com celulares em mãos, captem e usem nossas imagens ao bel prazer. Basta um meio para apropriar-se de algo privado (como nossa imagem e identidade) para considerarmos essa importunação algo natural e aceitável.
- Pessoas conhecidas por atitudes banais tornam-se heroínas e influenciadoras. A verdade é que Jeniffer, em vez de incomodar-se com a exposição de sua imagem, lucrou com isso tudo, a começar pelo número de seguidores: mais de 2 milhões em menos de uma semana. Muitos memes, apesar do deboche à situação, a tratam por diva. Tanto é assim que ela já fez publi, em suas redes sociais, para uma importante rede de lojas. Em vez de se sentir agredida com a situação, parece que ganhou na loteria: uma oportunidade de ouro se descortina à bancária, alçada à condição de influenciadora digital por ter sido vítima de um constrangimento e reagido a ele de modo absolutamente comum. No entanto, quase nada sabemos sobre ela, seu passado e visão de mundo. Será que merece ter a visibilidade e a atenção que conquistou?
Esse caso expõe a fragilidade da construção de narrativas nas redes sociais, em que fragmentos da realidade parecem suficientes para que a opinião pública reaja a fatos sem demorar-se em entendê-lo efetivamente. A viralização de conteúdos desse tipo pode transformar indivíduos comuns em heróis ou vilões da noite para o dia, desconsiderando a complexidade das relações humanas e a importância da investigação mais cuidadosa de um acontecimento. O caso da janela do avião revela que nos contentamos com pouco para concluir fatos, condenar ou endeusar pessoas. Precisamos ser melhores do que isso!
Imagem: wattanaphob kappago’s Images / Canva Pro





