Cena icônica de violência em novela é relembrada sem problematização de seus significados implícitos

A novela “Mulheres Apaixonadas”, de 2003 e reexibida algumas vezes desde então, foi um dos sucessos do autor Manoel Carlos. Algumas cenas da trama foram recentemente recordadas pelos atores que as vivenciaram no programa “Reviva a Cena”, do Canal Viva, que exibe novelas antigas da TV Globo.

Uma das cenas assistida novamente e comentada por dois atores foi a que a jovem Dóris, interpretada por Regiane Alves, apanha do pai, Carlão, vivido por Marcus Caruso. A moça era cruel com seus avós idosos, o que despertou a ira do público, que desejava algum tipo de corretivo às atitudes hostis da menina mimada do Leblon. 

O desejo do público foi atendido pelo autor. Ainda no segundo mês de exibição da novela, o benevolente e pacífico Carlão toma uma atitude pouco condizente ao seu perfil, mas que atendeu ao clamor sádico do público: ele agride a filha com um cinto, enquanto lhe dá uma lição de moral.

A cena foi celebrada em um reencontro dos atores que deram vida aos personagens há mais de 20 anos, mas sem uma reflexão aprofundada sobre os significados sociais da cena, sobretudo acerca do senso comum de que bater educa ou de que a violência pode ser aceita como forma de fazer justiça. Algo mais próximo disso foi uma rápida fala de Regiane, em diálogo com Caruso: “Nos dias de hoje essa cena seria impossível [pois] estamos vindo com outra educação”. 

Em outro momento, o ator destaca a forte lembrança do personagem por essa cena, que ocupou alguns minutos de um único capítulo da trama. Ele diz que algumas pessoas já o pararam para dizer: “Eu gostei daquela novela em que você batia na sua filha”. E ele completa: “como se eu tivesse batido a novela inteira. Não, eu só bati uma vez”. 

A relação de Mulheres Apaixonadas com estudantes do ensino médio foi objeto de estudo da pesquisadora Cláudia Mogadouro, durante a exibição da novela, resultando em sua dissertação de mestrado em Ciências da Comunicação, intitulada “Do pátio à escola: possibilidades de discussão da telenovela no processo educativo” (ECA/USP, 2005).

Fui aluno de Claudia em 2013, em um curso de especialização em Educomunicação. Em uma aula, ela comentou um experimento que realizou, acerca dessa cena icônica, com um grupo de professores com o qual também realizava discussões sobre a novela, além dos estudantes: em um dos encontros, o grupo de docentes comemorou o fato de Dóris ter apanhado do pai, considerando a surra, diluída em várias cenas curtas ao longo do capítulo, como merecida.

Alguns encontros posteriores, no entanto, a pesquisadora levou as cenas do espancamento de Dóris reeditadas numa única sequência e a opinião dos educadores mudou. Eles sentiram-se incomodados com a duração da violência e alguns passaram a considerá-la exagerada. 

O método utilizado pela pesquisadora foi bastante interessante para promover a leitura crítica da cena, demonstrando que uma mesma narrativa, ao ser exibida de outra forma (em sequência em vez de fragmentada entre as outras histórias da mesma trama) pode promover efeitos diferentes na audiência: repulsa ou restrições em vez de adesão completa, por exemplo.

Hoje, as telenovelas seguem critérios mais alinhados aos direitos humanos, com maior valorização da diversidade (com elencos compostos por mais pessoas negras, por exemplo) e que tratam a violência como crime, não como desforra ou direito dos seus heróis. No entanto, a proposta de revisitar o espancamento de Dóris, tratando-o como icônico, sem uma problematização mais acurada, acaba por endossar a equivocada legitimidade do ato, ainda que hoje os tempos – felizmente – sejam outros. 

Crédito da imagem: GNEPPHOTO / Canva Pro

Bruno Ferreira

Consultor em educomunicação e educação midiática. Doutorando em Educação pela FEUSP, mestre em Ciências da Comunicação e especialista em Educomunicação pela ECA/USP. É coordenador pedagógico do Instituto Palavra Aberta, docente da pós-graduação em Proficiência em Tecnologias Digitais para uma Educação Empreendedora, do Sebrae-DF, e formador de professores da SME São Paulo. Foi consultor da UNESCO e professor de comunicação e Desenvolvimento Social do Senac-SP.

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